Movimentos pela habitação transformaram um problema individual “num problema coletivo e político”. Guya Accornero analisa os recentes protestos pela habitação

Entrevista na RTP Notícias, 22 de outubro de 2026

Guya Accornero, diretora do Observatório da Democracia e da Representação Política e professora do Iscte, foi convidada da RTP Notícias a 22 de outubro de 2026 para comentar as recentes acampadas pelo direito à habitação e os protestos que se têm intensificado pelo país.

Na entrevista, a investigadora situou estas mobilizações num ciclo de protesto que vem do período pós-austeridade e que tem vindo a intensificar-se. Lembrou que acampar no espaço público é uma forma de luta já consolidada, usada da Puerta del Sol à Geração à Rasca, do Occupy Wall Street ao Gezi Park, e que, numa crise de habitação tão violenta como a atual, ganha um peso simbólico particular.

Sobre os resultados destes movimentos, Guya Accornero sublinhou que o seu sucesso nem sempre é imediato, mas que já conseguiram transformar um problema vivido como individual num problema coletivo e político, recolocando a habitação na esfera pública e na agenda política. Destacou ainda o perfil qualificado de muitos ativistas, que, além de protestarem, produzem conhecimento sobre a questão, e lembrou que quem protesta hoje o faz em nome de todos os que são afetados pela crise.

A análise apoia-se em vários anos de investigação sobre estes movimentos. Entre 2018 e 2022, Guya Accornero coordenou o projeto HOPES – Housing Perspectives and Struggles, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, que estudou os novos movimentos pela habitação em Lisboa e a forma como se relacionam com as políticas de habitação e as dinâmicas urbanas. Desenvolvido no CIES-Iscte em parceria com o ICS-ULisboa, o projeto combinou etnografia, análise de eventos de protesto e análise de políticas públicas, e incluiu uma parceria de investigação-ação com a associação Habita. Deste trabalho resultaram publicações sobre gentrificação, novas identidades coletivas e o conhecimento produzido pelos próprios ativistas, temas a que a investigadora voltou nesta entrevista.