Uma eleição, dois resultados: como a comunicação política e a economia política da comunicação nos ajudam a entender a vitória de Lula

Por Livino Neto

Bandeira do Brasil agitada ao vento, com palmeiras e céu azul ao fundo.
Foto: Matheus Câmara da Silva / Unsplash

Introdução

No último dia 25 de outubro, Luiz Inácio Lula da Silva conquistou sua quarta vitória em eleições presidenciais brasileiras, desta vez contra o senador Flávio Bolsonaro – candidato de ultradireita, filho do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro. Este momento abre o que pode ser o último ato da vida pública de uma das figuras mais marcantes da democracia brasileira.

No entanto, ler apenas as últimas linhas do capítulo não permite compreender a história em sua totalidade. Em 5 de outubro de 2026, Flávio Bolsonaro terminava o primeiro turno em 1º lugar, com 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula — uma diferença de 2.224.965 votos. Além disso, o PL elegeu 121 deputados federais e 19 senadores. Entre os eleitos da ultradireita, figuram jovens com forte presença digital, familiares do ex-presidente e aliados próximos. Como consequência, o Brasil terá, a partir de 2027, o Congresso mais reacionário desde a redemocratização.

O desafio de Lula e do campo progressista para o segundo turno era imenso. Precisava recuperar o ânimo após o resultado devastador para o Legislativo e quebrar o tabu histórico de que nenhum candidato que terminou o primeiro turno em segundo lugar jamais havia virado uma eleição presidencial no Brasil. Lula e seus aliados alcançaram esse feito, mas, antes de abordar essa conquista, é preciso explicar as causas da primeira derrota.

A entrada de temas emergentes

Antes do início do período eleitoral, projetava-se um crescimento considerável da bancada de ultradireita no Senado, estimulado pela pauta do impeachment de ministros do STF. Contudo, diante dos dados macroeconômicos majoritariamente positivos e do telhado de vidro de seu adversário, a reeleição do presidente Lula parecia o cenário mais provável.

Às vésperas do pleito, quando Flávio Bolsonaro se consolidava como o nome do campo conservador, ungido pelo pai, uma reportagem do veículo The Intercept Brasil revelou ligações do candidato com o banqueiro Daniel Vorcaro, investigado por crimes contra o sistema financeiro. O veículo divulgou áudios em que o candidato buscava financiamento, em valores bastante vultosos, para o projeto cinematográfico Dark Horse (uma cinebiografia livremente adaptada da vitória de Jair Bolsonaro nas eleições de 2018, orçada inicialmente em R$ 134 milhões), gerando investigações sobre o eventual uso dos recursos.

Mesmo com o governo precisando consolidar a perceção de melhoria econômica (com o mercado de trabalho aquecido, a queda da pobreza e o controle da inflação), a emergência de um tema externo desestabilizou o cenário. Quando o candidato não é favorecido pelo estado da economia, ele precisa realizar uma campanha insurgente, pautada por outros temas no debate público. A oportunidade para que Flávio Bolsonaro se beneficiasse dessa estratégia surgiu no Judiciário.

Primeiramente, veículos de imprensa passaram a divulgar informações relativas a investigações envolvendo Fábio Luís (Lulinha) e a aquisição de medicamentos por órgãos públicos, sem que, no entanto, houvesse qualquer contrato de compra desses medicamentos pelo governo, levantando suspeitas de vazamentos seletivos. Em seguida, desentendimentos públicos entre ministros do STF alimentaram o desgaste institucional da corte, eclodindo na denúncia do ministro André Mendonça sobre a suposta relação do ministro Alexandre de Moraes com o banqueiro Daniel Vorcaro.

Se a notícia é convertida pelos grandes veículos em mercadoria, transformando o valor da informação em valor de troca a partir da fragmentação da realidade e da personificação dos processos sociais, a comunicação social acabou uniformizando temas complexos sob a bandeira da “moralização das instituições”. Por meio de um processo de midiatização profunda em múltiplas plataformas, essa narrativa passou a ser interpretada pelo público como uma cruzada contra o sistema. Assim, não surpreende que atores alinhados ao discurso pró-impeachment de ministros do STF e “contra tudo que está aí” tenham sido impulsionados, enquanto as candidaturas identificadas com o “sistema” e a própria candidatura do presidente Lula tenham sido penalizadas.

Evidentemente, não apenas a emergência destes temas consolidou a derrota do campo progressista no primeiro turno; a campanha de Lula, naquele momento, foi praticamente analógica, muito dependente dos palanques locais e errática em termos de estratégia de comunicação. Focou-se, sobretudo, em enaltecer o legado histórico do presidente, ignorando a necessidade de apresentar para os eleitores “o Brasil do amanhã”, quase como se as eleições fossem uma turnê de despedida do Lula.

Segundo turno e a remontada do campo progressista

Já é amplamente comentado como o pós-resultado eleitoral inicial gerou um processo de desorientação no núcleo duro da campanha de Lula, numa busca infindável pelos responsáveis pelo resultado aquém do esperado no primeiro turno. Em contrapartida, essa conjuntura ossificou na campanha de Flávio Bolsonaro a percepção de que o quadro seria irreversível a três semanas da segunda volta.

Dois fatores afiguram-se fundamentais para compreender a reviravolta do clima e do resultado eleitoral: a ação autónoma dos movimentos sociais (sobretudo de juventudes), que ocuparam e conectaram as ruas e as redes para travar o avanço do bolsonarismo; e a entrada em cena de atores da esquerda com forte presença digital, articulados na formação de um “Partido Digital Lulista” em contraponto ao “Partido Digital Bolsonarista”.

A partir da sinergia entre coletivos de juventude, sindicatos, políticos influenciadores e figuras públicas, constituiu-se uma ecologia de ação capaz de promover atos massivos logo nas primeiras horas da segunda volta — como a mobilização dos estudantes da Universidade Federal Fluminense ou as assembleias populares em Fortaleza —, mesmo sem orientações prévias ou material de campanha. Em nenhum dos casos houve um controlo rígido do comitê central: a candidatura de Lula funcionou como atrator e pauta de convergência para a ação, antecipando-se à convocação oficial.

Não se pretende erguer o mito de que a horizontalidade das ruas, por si só, reelegeu o presidente Lula, mas sim reconhecer que a descentralização das ações foi determinante para reagir ao choque da primeira volta. Esse movimento devolveu a carga emotiva à campanha por meio de uma mediação simbólica e organizacional pelas redes sociais, orientando a presença física no espaço público e alimentando o ambiente digital com imagens de esperança.

Paralelamente, a criação do canal do WhatsApp Exército do Lula, pelo deputado federal André Janones — que atingiu mais de 10 milhões de seguidores —, constituiu a infraestrutura digital necessária para a emergência do que aqui se conceitua como Partido Digital Lulista, formulado em contraponto ao Partido Digital Bolsonarista. A plataforma permitiu uma atuação crescentemente coordenada de ação política organizada, cuja dinâmica ocorria na esfera digital.

Trata-se aqui — tal como na intervenção digital bolsonarista — de uma estratégia consciente e coordenada de ação política. Esta representa um esforço organizado voltado para a aquisição de poder social, gerando uma dinâmica de atuação digital permanente, que articula a relação entre liderança e base e converte a fragmentação do seu público numa coletividade unificada em torno de uma agenda identitária coesa, constituindo organização coletiva e escolha social. Assim, o Partido Digital não só permitiu à esquerda intervir num ecossistema até então dominado pelo bolsonarismo, como foi decisivo para contornar o enviesamento algorítmico das plataformas da Meta em favor do adversário.

Não há neutralidade da Meta e nem dos grandes meios de comunicação corporativos

Já com a “normalização” do poder judicial brasileiro, sem que este continuasse a ser o tema central da campanha, começou-se a discutir o programa socioeconómico (e a ausência dele) de cada uma das candidaturas que disputavam a segunda volta. Ao mesmo tempo, os candidatos passaram a ser mais escrutinados em relação às suas ações pregressas.

Se é verdade que Flávio Bolsonaro soube demonstrar desenvoltura diante das câmeras, seja durante as sabatinas ou nos debates, a sua performance política não soava original nem autêntica como a do pai. No primeiro debate, pareceu um bully de escola secundária ao emular Donald Trump no confronto contra Hillary Clinton, posicionando-se atrás do adversário e fazendo caretas em todos os momentos em que Lula aparecia a falar. Como a tática saiu pela culatra e atraiu a antipatia do público, Flávio buscou retomar, no debate seguinte, de maior audiência, uma docilização do seu discurso.

Esta atitude soou, contudo, falsa e não resistiu à personalidade original do candidato, que chamou o adversário de «nove dedos» numa chacota bolsonarista. Lula soube aproveitar a provocação na sua resposta: “Não vou permitir que um miliciano me chame de nove dedos. Ele nunca trabalhou na vida, não sabe o que é uma carteira profissional. Vai ter de pedir desculpas”, reagiu o presidente, esclarecendo ter perdido o dedo da mão esquerda aos 17 anos num acidente de trabalho metalúrgico num turno noturno, em situação irregular. E rematou: “Milhões de trabalhadores sofrem acidentes por irresponsabilidade patronal”.

Se o candidato da direita radical não conseguia demonstrar transparência, o mesmo se pode afirmar da Meta durante o processo eleitoral. A empresa norte-americana terá alegadamente favorecido a candidatura de Flávio Bolsonaro, sobretudo ao restringir anúncios de Lula e impulsionar, de forma desproporcional e automática, publicações de candidatos da direita. A jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de São Paulo, noticiou trocas de mensagens internas entre funcionários e engenheiros da Meta nas quais estes admitiam que restrições técnicas nos algoritmos e sistemas de moderação acabaram por prejudicar as contas de Lula.

É evidente que a participação das big techs em processos eleitorais mereceria um texto à parte, capaz de beneficiar dos contributos da economia política da comunicação sobre o assunto. No entanto, é importante ressaltar como estas eleições demonstram que o processo de plataformização configura uma relação imperialista, na qual o sistema democrático de um país fica à mercê de uma multinacional de origem americana com capacidade de reorganizar as práticas e imaginações culturais da população em torno das plataformas. Configura-se, assim, crucial para o sistema democrático brasileiro o reforço da discussão sobre a regulamentação das plataformas, sob pena de a democracia ficar submetida a interesses externos.

Da mesma forma, cabe prestar atenção ao papel do jornalismo profissional e dos grandes meios de comunicação durante a segunda volta. Se, por um lado, houve um trabalho imprescindível de apuração das relações entre Flávio Bolsonaro, Daniel Vorcaro e Willer Tomaz — com grandes investigações conduzidas por órgãos independentes, detalhando o processo —, por outro, a tradicional revista semanal Veja publicou um áudio que procurava vincular Daniel Vorcaro a Lula sem que este fosse reconhecido pela Polícia Federal ou pela Procuradoria-Geral da República como parte da delação ou da investigação do banqueiro. O episódio levantou a suspeita de ter sido uma encenação gravada clandestinamente na prisão e veiculada pelo semanário. A CNN Brasil também não ficou atrás: às vésperas do primeiro debate presidencial da segunda volta, transmitiu uma entrevista com Roberta Luchsinger na qual a lobista tentou associar denúncias ao presidente Lula sem apresentar qualquer prova. Soma-se a estes factos o “inusitado” almoço de Flávio Bolsonaro com João Roberto Marinho (presidente do Grupo Globo) no dia da sua sabatina na emissora, sem que idêntico tratamento fosse concedido ao candidato da esquerda.

Se o jornalismo profissional demonstrou vigor e urgência na sua atuação, a imprensa corporativa voltou a evidenciar a sua parcialidade em práticas pouco republicanas. Tal conjuntura reforça, por um lado, a necessidade de reconhecimento e valorização do profissional da informação e, por outro, a atualidade da luta por um sistema de comunicação amplo, plural e democrático.

Existem conclusões?

Ainda é prematuro retirar conclusões definitivas sobre o alcance total das eleições brasileiras de 2026. Este pleito permanecerá incontestavelmente na ordem do dia nos próximos anos, impulsionado pelas contribuições de diversas áreas académicas, com destaque para as ciências sociais. O objetivo deste ensaio foi apenas oferecer uma contextualização do processo eleitoral, com especial atenção às dinâmicas que atravessam o campo da comunicação.

É igualmente cedo para mensurar o impacto global deste resultado nos próximos processos eleitorais pelo mundo. Contudo, emergem já sinais de que a experiência brasileira atua como um vetor de esperança na contenção da extrema-direita e no reforço dos sistemas democráticos à escala global. Este movimento desenhou-se a partir de novos processos de comunicação e da emergência de novas identidades políticas — curiosamente, no contexto de uma candidatura liderada por um político octogenário, na sua sétima disputa presidencial e no seu quarto mandato democraticamente conquistado.

O acontecimento político no Brasil foi grande e é justamente essa dimensão que encanta e inspira um mundo que se recusa a desistir da democracia.

Nota: Este ensaio contou com o suporte da ferramenta de inteligência artificial Gemini (Google) exclusivamente para auxílio na revisão textual, adaptação do conteúdo para o português de Portugal e exploração inicial de dados sobre a campanha eleitoral. Registra-se que todas as revisões e informações geradas ou levantadas pela ferramenta foram devidamente revistas, checadas e validadas pelo autor.